Livros: interpretações e significados do poder

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26 de setembro de 2012 por Samuel Santos


Faça do livro seu farol, do conhecimento adquirido sua trilha e assim poderás escolher com segurança a estrada a percorrer.

Na crônica semanal para o blog Manifesto Rapadura optei por abordar um tema importante: O livro. Mesmo não sendo lembrada dada a devida relevância, ao menos aqui em Santo Antônio da Patrulha, vivemos a Semana Internacional do Livro. Um momento tão importante quanto outros tantos como, por exemplo, a Semana Farroupilha comemorada à poucos dias. Cada uma das citadas semanas possui seus fatores motivacionais, vieses e  grau de importância no contexto social. Claro, aqui para nós gaúchos, dentro do nosso bairrismo insurgente, a questão Farroupilha faz enaltecer nossos brios.  A história da “revolução” farroupilha na maioria dos livros é contada pela metade ou apenas a verdade que interessa para alguns.

Calma, que fique bem claro, não sou contra as comemorações da semana farroupilha, tão pouco contra o tradicionalismo. Ressalto a importância destes movimentos. Apenas usei deste contexto para ressaltar que histórias podem ser contadas, nos livros e outros meios, com “meias verdades”. Mas não é foco neste espaço abordar a veracidade da  Revolução Farroupilha como uma verdadeira revolução. Quero aqui abordar a importância dos livros na nossa formação cidadã, como seres sociáveis, vivemos num contexto onde a detenção do conhecimento é sinônimo de poder.

Para falar de conhecimento em especial da importância do livro teríamos que nos remotar à escrita cuneiforme feita pelos assírios e babilônios e ao Código de Hamurabi (conjunto de leis transcrito em 1694 a.C.). Também nos reportarmos, segundo alguns, ao primeiro livro a ser configurado de tal forma  com tipos móveis, com capa e encadernado, publicada em 1454 na Alemanha, a Bíblia de 42 linhas de Gutenberg (1397 – 1468). Outros defendem que   a história do livro inicia-se na China. Afirmam que os chineses  teriam inventado um tipo móvel, 400 anos antes de Gutenberg, entre 1041 e 1049.  Pi Shêng foi um escritor que teria inventado o livro  utilizando argila cozida para fabricá-lo. Em qual destas verdades acreditamos?

Resolvi narrar um pouco desta história, que é controversa,  para que possamos entender que há diversas formas de se contar as “verdades”. E para além das diversas formas contadas, escritas e narradas, entre o livro e o leitor, existem os autores. Independente do conteúdo, romance, ficção, relato de uma história, o livro  relata nada mais do que o sentimento do autor e seu modo de ver e sentir sobre determinada situação, ação e reação em determinado espaço de tempo. Sabemos que todos possuímos nossos vínculos, nossas “afeições”, temos nossas preferências e ideologias. O autor de um livro, artigo, peça de teatro, tele novela, etc. transfere para sua criação aquilo que convém, ou seja, o que melhor se adéqua para ocasião, segundo sua “leitura de mundo”. Complexo não? (darei exemplo no próximo parágrafo).

O conhecimento, que pode ser transmitido de várias formas não só através da literatura, mas principalmente através dos livros, pode ter diversas formas de interpretação. O que dizer de Monteiro Lobato  tido como um dos “maiores escritores brasileiros”, estar sendo processado  por racismo em suas obras?(mais detalhes em Cartacapital). Obras estas que fazem parte da formação infantil, pois estão no conteúdo do Programa Nacional Biblioteca da Escola, que distribui milhões de livros a escolas públicas. “Crianças e jovens que lêem Caçadas de Pedrinho ou outras obras lobatianas opinam que o livro incentiva atitudes racistas? Leitores afrodescendentes sentem-se ofendidos quando lêem as histórias do Sítio?”, diz Marisa Lajolo, professora da USP e especialista em Monteiro Lobato em entrevista a Revista Carta Capital. Aqui, mesmo controversa, sentimos que a literatura toca nos brios, cria tensões, inquietudes e moves com os seres da sua “zona de conforto”. Qual o seu sentimento ao ler que a “Tia Nastácia” é  retratada como “macaca de carvão” na obra de Lobato?

O livro, querendo ou não, para o bem ou para o mau, acaba diferenciando o senso das pessoas. Não se trata apenas de elevar o nível intelectual, mas sim de compreender a realidade, os entorno e as essências dos projetos de sociedade que a nós é imposto.

Vivemos tempos de efervescência das redes sociais aqui no Brasil onde vejo muitas pessoas “curtir” absurdos e compartilharem  coisas vazias, sem sentido algum. A grande maioria ocupa seu tempo com promiscuidades que pouco irá contribuir para sua formação. Dito isso, tive a oportunidade de fazer meu estágio em Desenvolvimento Rural na França. Tive vivencias com muitas famílias por lá. Constatei que na grande maioria possuíam bibliotecas particulares. Percebi que o tempo dedicado a TV, a internet, as redes sociais era restrito. Restrito não por imposição, mas por opção. O tempo era empregado em leitura. Continuo me comunicando com um amigo Frances chamado Didier Brosan e vejam o que ele me responde num email referente à um convite que eu fizera para as redes sociais: “J‘ai bien reçu tes propositions de Facebook et Linkelde mais je ne suis pas adepte des réseaux sociaux et ne souhaite pas y consacrer du temps”.Traduzindo: “Recebi suas propostas de Linkelde e Facebook mas eu não sou um fã de redes sociais e não quero gastar tempo.”

Não percamos nosso tempo. E ao contrário do que muitos pensam a leitura não é necessidade apenas nos bancos escolares e nos meios acadêmicos. Assim como existem as controvérsias sobre a existência do livro, e acerca da sua “paternidade” a leitura nos instiga a questionar a “nossa existência” e o contexto de onde vivemos em fim tudo a nossa volta.

Falávamos até bem poucos dias de revolução e neste período falamos de coronelismo, liberdade de expressão, democracia, cidadania, ideologia, partido e outros tantos termos. No período eleitoral os respectivos termos são utilizados para promover ou desqualificar. Ouso dizer que alguns dos que os pronunciam não detém conhecimento para saber a essência, tão pouco diferenciar o significado de cada um dos respectivos termos. Com certeza se eles tivessem se municiado de livros a dicção dos termos seria a mesma, mas a apropriação do conteúdo daria outro sentido à sociedade que vivemos.

Tudo isso nos remete a necessidade da leitura. Precisamos compreender e conhecer todas as “faces da verdade”. Não podemos permitir a simplificação de nossa formação, nosso  conteúdo crítico apenas com “informações” à partir de veículos de imprensa. Não quero diminuir a importância de tais veículos, pois são importantes para que possamos contrapor nossas opiniões. Mas é inadmissível que exerçamos nossa cidadania baseados em visões pela metade, com fins comerciais, recheadas de má intenção, reduzindo e até mesmo omitindo as verdades.

Como já diz aquele velho dito popular: “podem me tirar tudo, mas não conseguirão tirar o meu conhecimento”. Então vamos fazer de cada dia, de cada semana, de cada tempo livre: “O dia do livro”  “A semana da leitura”, “O tempo do conhecimento” e assim possamos contar as nossas próprias verdades.

Ler nos faz compreender o ponto onde estamos e como chegamos até ele. Ajuda-nos a construir o caminho por onde queremos seguir. Faz-nos questionar o caminho que os autores, através de suas obras, livros, revistas,  jornais, e TV’s insinuam como “luz a ser seguida”. Faça do livro seu farol, do conhecimento adquirido sua trilha e assim poderás escolher com segurança a estrada a percorrer.

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