Cooperação: aprender das formigas e dos cupins

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30 de setembro de 2012 por Samuel Santos


Por Leonardo Boff

Novamente aproveito os conhecimentos ecológicos  do jornalista Washington Novaes para reforçar um dos paradigmas mais urgentes para superar a atual crise e lançar os fundamentos de uma nova civilização e de um outro tipo de humanidade: a cooperação. À luz das formigas e dos cupins que vivem e sobrevivem da ilimitada cooperação, mostra-nos um caminho para toda a humanidade. Se Marx tivesse conhecimento destes dados teria argumentos mais convincentes para o seu ideal do socialismo como forma cooperativa de organização social e forma de estruturar o Estado.LB

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Texto da BBC Brasil estampado na última segunda-feira por este jornal relata a preocupação de cientistas com a “invasão global de minhocas” e de “outras espécies alienígenas” – entre elas as formigas -, que “já conquistaram quase todos os continentes” (a Antártida é uma das exceções). Espécies invasoras estão “vencendo a competição” com espécies locais porque se adaptam rapidamente a terrenos desmatados e alterados, mudam a estrutura dos solos. Podem reduzir efeitos da erosão, como na Amazônia, aumentar o nível de minerais no solo e estimular o crescimento de plantas. Mas afastam outras espécies.

       Estranho que possa parecer, é tema altamente relevante, fascinante mesmo, por muitos ângulos. E quem se interessar pode, por exemplo, consultar o livro Journey to the ants – a story of scientif exploration” (Harvard Press University, 1994)de Bert Hordobler e Edward Wilson, este último considerado um dos maiores conhecedores da biodiversidade e o maior especialista em mirmecologia, o estudo das formigas, ao qual se dedica há meio século no mundo todo, com vários livros publicados. A ponto de um deles (The Ants, 1990), pesar 3,4 quilos.Juntos, Wilson e Hordobler têm pesquisas de quase um século.

       Wilson e Hordobler começam ensinando aos humanos uma lição admirável das formigas : seu êxito – que as levará a dominar o planeta, de acordo com o primeiro – decorre do extraordinário comportamento de cooperação entre os milhares de membros de cada colônia, que gera extrema eficiência , na busca, transporte e armazenamento de alimentos, na reprodução, na defesa do grupo  etc. Uma das armas principais nessa luta coletiva pela vida é o uso de vários tipos de linguagem (corporal, visual, gestual etc.), principalmente química – porque o odor de cada parte do corpo, emitido no encontro de dois seres, pode ter significados muito específicos, como alarme, desejo de atração, disposição para cuidar da cria, oferta de alimentos etc. E essa cooperação é a base da sobrevivência.

       A colônia é o sentido fundamental da vida para cada formiga, embora possa haver disputa entre a rainha e formigas operárias, quando estas se sentem em condições de reproduzir (o que cabe à rainha). Pode haver também conflitos com outras formigas da mesma espécie. Mas, com suas características, as formigas sobrevivem há muito mais tempo que os seres humanos, uns 100 milhões de anos, desde a época dos dinossauros. É quase inacreditável, quando se lembra que o tamanho de uma formiga é de cerca de um milionésimo do corpo humano. Mas elas representam um por cento do quintilhão de insetos que existem no planeta – já eram na década de 90 cerca de 10 quatrilhões e cada formiga se reproduz umas 500 vezes nos 20 anos que o ser humano leva para formar cada nova geração. Por isso, pensa Wilson, as formigas dominarão a Terra. Hoje, juntas, pesam tanto quanto todos os seres humanos.

       Já há estudos demonstrando que na floresta amazônica, perto de Manaus, formigas e térmites representam um terço da biomassa animal. Se a elas se acrescentarem abelhas e vespas, serão 80% do total. Por isso, dizem Wilson e seu parceiro, pode-se afirmar que “o socialismo funciona, em certas circunstâncias. Karl Marx apenas escolheu a espécie errada” para estudar. Embora, no caso das formigas, suas 500 mil células nervosas tenham, juntas, apenas o tamanho de uma letra numa página de livro. E se todas as espécies de formigas desaparecessem – afirmam – “seria uma catástrofe”

       Poderíamos aprender muito com formigas, cupins e muitas outras espécies vegetais. Há alguns anos, quando produzia um documentário para a TV Cultura, o autor destas linhas foi ao Jardim Botânico paulistano acompanhando um especialista em grandes estruturas de concreto na USP, que começou mostrando uma variedade de bambu com a maior capacidade de resistência a impactos físicos por centímetro quadrado – e o estudo dos fundamentos dessa resistência serviam para orientar a criação de grandes estruturas de concreto. Depois, mostrou um cupinzeiro, abrindo com as palavras: “Este é o edifício mais inteligente que existe. Aqui vivem dezenas de milhares de indivíduos, que convivem em harmonia, trafegam sem congestionamento (para buscar alimentos), sem colisões, sem conflitos, orientando-se com várias linguagens. No interior do cupinzeiro, existem câmeras específicas onde a rainha deposita seus ovos para reprodução; câmeras para depósito de alimentos, com orifícios no alto para a saída de gases da decomposição; outros orifícios que são fechados ou abertos por ação dos cupins, para adaptar-se às temperaturas fria ou quente. Pode haver algo mais racional ?”

       No momento em que tantos estudos mostram o momento difícil que vivemos por causa das várias crises globais, inclusive a da finitude de  recursos naturais, é preciso entender muito mais da relação humana não apenas com os ecossistemas, biomas, áreas específicas, mas também do significado, em cada um deles, das muitas espécies, sua importância para a conservação – e para a sobrevivência humana. É espantoso que, na hora em que cientistas afirmam que toda a superfície de gelo acumulada no Ártico pode derreter-se (nos meses de verão) em quatro anos (guardian.co.uk, 17/9), liberando quantidades assombrosas de metano acumuladas sob a camada até aqui permanente, é preciso ter consciência da gravidade. E da necessidade de levar os comportamentos sociais a serem adequados às novas questões. Até formigas, cupins, abelhas e vespas enquadram-se nesse contexto.

       É aflitivo, por isso, verificar a distância dos temas fundamentais em  que se encontram, nesta hora, os temas das campanhas eleitorais em todo o país. Não será por essas veredas imediatistas que se poderá chegar a alguma via larga, aberta para o horizonte e o futuro.

Washinton Novaes

Fonte: O Estado de São Paulo 28/09/2012

 

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