A direita que ri

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11 de outubro de 2012 por Samuel Santos


Roberto Gurgel, assim como seu antecessor Antonio Fernando de Souza, foi tutelado por uma política republicana do PT. Foto: Carlos Humberto/SCO/STF

Julgamento do ‘mensalão’

Por Leandro Fortes

Tenho acompanhado nas redes sociais, desde cedo, e sem surpresa alguma, o êxtase subliterário de toda essa gente de direita que comemora a condenação de José Dirceu como um grande passo civilizatório da sociedade e do Judiciário brasileiro. Em muitos casos, essa exaltação beira a histeria ideológica, em outros, nada mais é do que uma possibilidade pessoal, física e moral, de se vingar desses tantos anos de ostracismo político imposto pelas sucessivas administrações do PT em nível federal. Não ganharam nada, não têm nada a comemorar, na verdade, mas se satisfazem com a desgraça do inimigo, tanto e de tal forma que nem percebem que todas essas graças vieram – só podiam vir – do mesmo sistema político que abominam, rejeitam e, por extensão, pretendem extinguir.

José Dirceu, como os demais condenados, foi tragado por uma circunstância criada exclusivamente pelo PT, a partir da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, data de reinauguração do Brasil como nação e república, propriamente dita. Uma das primeiras decisões de Lula foi a de dar caráter republicano à Polícia Federal, depois de anos nos quais a corporação, sobretudo durante o governo Fernando Henrique Cardoso, esteve reduzida ao papel de milícia de governo. Foi esta Polícia Federal, prestigiada e profissionalizada, que investigou o dito mensalão do PT.

Responsável pela denúncia na Procuradoria Geral da República, o ex-procurador-geral Antonio Fernando de Souza jamais teria chegado ao cargo no governo FHC. Foi Lula, do PT, que decidiu respeitar a vontade da maioria dos integrantes do Ministério Público Federal – cada vez mais uma tropa da elite branca e conservadora do País – e nomear o primeiro da lista montada pelos pares, em eleições internas. Na vez dos tucanos, por oito anos, FHC manteve na PGR o procurador Geraldo Brindeiro, de triste memória, eternizado pela alcunha de “engavetador-geral” por ter se submetido à missão humilhante e subalterna de arquivar toda e qualquer investigação que tocasse nas franjas do Executivo, a seu tempo. Aí incluída a compra de votos no Congresso Nacional, em 1998, para a reeleição de Fernando Henrique. Se hoje o procurador-geral Roberto Gurgel passeia em pesada desenvoltura pela mídia, a esbanjar trejeitos e opiniões temerárias, o faz por causa da mesma circunstância de Antonio Fernando. Gurgel, assim como seu antecessor, foi tutelado por uma política republicana do PT.

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Dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, seis foram indicados por Lula, dois por Dilma Rousseff. A condenação de José Dirceu e demais acusados emanou da maioria destes ministros. Lula poderia, mas não quis, ter feito do STF um aparelho petista de alto nível, imensamente manipulável e pronto para absolver qualquer um ligado à máquina do partido. Podia, como FHC, ter deixado ao País uma triste herança como a da nomeação de Gilmar Mendes. Mas não fez. Indicou, por um misto de retidão e ingenuidade, os algozes de seus companheiros. Joaquim Barbosa, o irascível relator do mensalão, o “menino pobre que mudou o Brasil”, não teria chegado a lugar nenhum, muito menos, alegremente, à capa de um panfleto de subjornalismo de extrema-direita, se não fosse Lula, o único e verdadeiro menino pobre que mudou a realidade brasileira.

O fato é que José Dirceu foi condenado sem provas. Por isso, ao invés de ficar cacarejando ódio e ressentimento nas redes sociais, a direita nacional deveria projetar minimamente para o futuro as consequências dessas jurisprudências de ocasião. Jurisprudências nascidas neste Supremo visivelmente refém da opinião publicada por uma mídia tão velha quanto ultrapassada. Toda essa ladainha sobre a teoria do domínio do fato e de sentenças baseadas em impressões pessoais tende a se voltar, inexoravelmente, contra o Estado de Direito e as garantias individuais de todos os brasileiros. É esperar para ver.

As comemorações pela desgraça de Dirceu podem elevar umas tantas alminhas caricatas ao paraíso provisório da mesquinharia política. Mas vem aí o mensalão mineiro, do PSDB, origem de todo o mal, embora, assim como o mensalão do PT, não tenha sido mensalão algum, mas um esquema bandido de financiamento de campanha e distribuição de sobras.

Eu quero só ver se esse clima de festim diabólico vai ser mantido quando for a vez do inefável Eduardo Azeredo, ex-governador de Minas Gerais e ex-presidente do PSDB, subir a esse patíbulo de novas jurisprudências montado apenas para agradar a audiência.

Fonte: CartaCapital

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2 pensamentos sobre “A direita que ri

  1. Josimar da Silva Marques disse:

    Olá caros colegas.
    sobre a condenação do núcleo petista do mensalão, mesmo que considerada pelos amigos como euforia “da gente da direita”, bem como muito divulgada pela mídia como os próprios afirmam, na minha simples opinião trouxe um alento a população deste país. Ainda sem a confirmação das penas(todo este movimento pode terminar numa grande frustração), o sentimento que se tem é de que apartir de agora não apenas os peixes pequenos, mas também os grandes possam pagar pelos seus atos.
    Um questionamento que deixo, é qual o interasse que os ministros teriam em condenar o n´cleo petista sem provas? se os mesmos na maioria foram indicados por Lula e Dilma?
    afirmar que José Dirceu foi condenado sem provas, é o mesmo que dizer que o então Presidente Lula não tinha conhecimento de todo esquema, ou pelo menos uma parte dele.
    Reconheço muitos avanços na política e na economia do país no governo Lula e Dilma, mas há grandes problemas como saúde e segurança. o espetáculo que a mídia mostra no Rio com a ocupação das favelas, espero que todos tenham a sensibilidade de compreender que está diretamente ligado a Copa e as Olimpíadas, ou seja são imposições vindas dos comitês destas duas organizações.
    Caros amigos esta é minha humilde opinião.
    Até a próxima.

    • Samuel Santos disse:

      É isso ai Josemar! O espaço do Manifesto Rapadura é popular onde a opinião de cada um é de grande valia. O objetivo da publicação do artigo em questão é justamente trazer esta outra versão dos fatos. Não queremos impunidade e tão pouco que os fatos fiquem por “de baixo” dos panos como acontecia e acontece. A gtrande questão que eu perguntaria ao amigo é que a condenação dos “peixes grandes” comomtu coloca, mesmo sem provas não poderia abrir precedentes ainda maiores para que possíveis inocentes sejam condenados á partir de fatos criados, no caso pela mídia alimentando a pressão popular por justiça a qualquer preço? Tu acha realmente que não há interesse algum dos ministros tanto para absolvição quanto para cassação?
      Contamos contigo para enriquecermos este espaço. Continue nos acompanhando e trazendo suas contribuições.
      Abraço

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